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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

Na vidraça

  • Foto do escritor: Juliana Machado
    Juliana Machado
  • há 3 dias
  • 10 min de leitura


Segunda-feira, 10/03, 8h30


- Bom dia, tudo bem? Um café coado, por favor.

- Bom dia, minha filha. Levo já na mesa, pode ir sentar.

- Obrigada.


Ela sorriu e foi sentar-se na mesa perto da vidraça, um ritual recém-adquirido naquele novo mundo que se abriu a ela nas últimas semanas. Sentar ali e tomar devagar um café coado na hora, vendo a movimentação acelerada da rua já desde tão cedo, de alguma forma lhe trazia a serenidade que ela andava precisando para levar a vida. Era o tempo de respiro que tinha ao longo do dia. Às 9h precisava assumir a nova posição e não estava sendo fácil.


O trabalho novo, promissor, agora parecia mais difícil. Chefiar um grupo eminentemente masculino, especialmente quando o chefe anterior era querido por todos e havia deixado a organização, não era tarefa fácil. Eram muitas as entregas requeridas, muitos prazos a serem cumpridos e muitos problemas a serem resolvidos. Ela não entendia ainda todas as engrenagens que moviam aquela instituição e ninguém parecia muito disposto a ajudá-la. “Achei que você era capaz dessa tarefa, me enganei?” foi a resposta que ouviu logo no primeiro dia, quando perguntou a que setor deveria direcionar uma demanda. Aquele dia ela engoliu seco.


Mas ela não seria ela se aceitasse a situação simplesmente. Ela era capaz, sabia disso ali tomando seu café coado. Ao longo do dia, no entanto, muitas vezes duvidada de ter tomado a decisão correta - teria talvez dado um passo maior que a perna? Temia não ter o tempo necessário para demonstrar o seu valor, as suas capacidades. Das mulheres é sempre esperado um resultado mais rápido e são tolerados menos erros, pensava. Todo dia é um novo dia para se provar, do zero.

Resolveu então enfrentar aquele desafio como fazia em todos os projetos maiores que já havia gerenciado: um pequeno desafio de cada vez.


Ali, então, diante do seu café, ela repetia mentalmente os compromissos do dia e escolhia que demandas e problemas iria enfrentar e quais deixaria para depois. Respirava fundo e então repetia para si o que a levou a fazer aquela escolha e sua capacidade de realização. Quando terminava, partia para enfrentar seu dia.


- Obrigada, bom dia. – Despediu-se, sem notar os olhares ao seu redor.

A vida lá fora já ia adiantada e ela precisava assumir seu posto.

 

Terça-feira, 11/03, 8h32


- Bom dia, um café coado, por favor. ... Posso aguardar na mesa? ... Obrigada!


Foi sentar-se. Olhou o dia lá fora, cinzento, ameaçando chuva forte, e os primeiros pingos apareceram em seguida. As pessoas apressaram o passo, cobriram as cabeças, mulheres protegeram o busto. “Esqueci meu guarda-chuva justo hoje!”, pensou desapontada.


Pensou também nos relatórios que havia pedido dos seus subordinados, não sabia se lhe entregariam hoje. Ela precisava deles para desenhar as estratégias para os próximos meses e não podia esperar mais – também era cobrada. Entre reuniões com clientes e com a equipe, precisava ainda de tempo para marcar médico e rever os seus exames. Precisava também ir na academia após o trabalho, um compromisso ainda não retomado e que já apresentava consequências no seu corpo, mas o supermercado era mais urgente. Devia ter ido no fim de semana e não foi, agora as demandas se avolumavam... fazer o quê?


Ela respirou fundo e tomou o café. “Eu sou capaz”.


Faria a reunião com a equipe tão logo chegasse ao escritório e cobraria os relatórios; caso não estivessem prontos, daria o dia a mais de prazo, repetindo a urgência e avisando a todos as consequências da não entrega. Marcaria o médico no intervalo da visita dos clientes e começaria a análise dos relatórios e desenho das estratégias ainda hoje. No fim do expediente poderia ir no supermercado e a academia ficaria para o dia seguinte.


“É o que dá”, concluiu quase satisfeita.


A chuva havia aumentado. Tomou seu último gole de café e saiu apressada, cobrindo o que pode.

 

Quarta-feira, 12/03, 8h31


- Bom dia. Um café coado, por favor.

- Bom dia, a senhora vai tomar na mesa?

- Sim, por favor.

- É pra já.


Sentou-se. Lá fora o dia ia bonito, ensolarado, nem lembrança da chuva do dia anterior. Ela também estava ensolarada. O dia de ontem havia sido muito produtivo, conseguiu realizar quase tudo o que planejou no último café: os relatórios foram entregues, as reuniões foram feitas, a consulta foi marcada e até as suas estratégias já se desenhavam em sua mente. É certo que nem no supermercado conseguiu ir, porque saiu tarde do trabalho, mas agora ela tinha um plano a seguir e isso era bom demais. Estava satisfeita.


As pessoas passavam na rua, ainda apressadas, mas sorridentes. “Deve ser o sol”, pensou.

Hoje precisaria finalizar seu esboço estratégico para a reunião das chefias, precisaria delegar todos os demais compromissos, para poder focar nisso. Quem poderia substituí-la?, não sabia. Hoje sem falta passaria no supermercado, a casa já estava sem comida alguma. Lembrou também que precisava de uma indicação de diarista – estava sem já fazia algum tempo, mas agora com o volume de trabalho aumentado, aquela ajuda fazia falta. “Preciso ligar para a mamãe”.


Terminou o café, sorriu sozinha. “Eu sou bem capaz”.

 

Quinta-feira, 13/03, 8h32

- Bom dia, disse ela à dona Fátima, com um aceno singelo.

- Bom dia, minha filha. Já levo seu coado na mesa.

- A senhora pode acrescentar aquele doce que me serviu no outro dia?

- Claro, levo tudo junto.

- Muito obrigada.


Do lado dela, no balcão, um rapaz sorriu. Seria para ela? Provavelmente não, não o conhecia. Virou-se e foi para a sua mesa de costume.


Lá fora as pessoas estavam aparentemente mais aceleradas. Seria cansaço, aproximação do fim de semana ou só a pressa de sempre? Não saberia dizer. Ela mesma ali na cafeteria fazia as coisas bem devagar, tudo no seu tempo, com gosto. Mas assim que saía na rua assumia a mesma pressa e padrão das pessoas que olhava – o vidro poderia lhes separar naquele momento, mas era na verdade quase um espelho dela mesma, ela se reconhecia ali na rua.

Hoje sairia mais cedo do trabalho para a consulta médica. Aproveitaria e iria na academia e no supermercado. Fizera mil checagens em casa e tinha certeza de que havia trazido todo o necessário. Comeu seu docinho com gosto, aproveitando cada mordida. Vai que o médico manda cortar os doces? Era melhor aproveitar enquanto podia, sem culpa. Precisava ligar para sua mãe, não podia esquecer de novo.


“Eu consigo”.


Tomou o coado quase num gole só e saiu, tranquila.

 

Sexta-feira, 14/03, 8h40


- Bom dia, a senhora pode me ver o café coado na mesa?

- Bom dia, minha filha. Levo já. Quer o doce hoje também?

- Hoje não, obrigada.

- Tá certo. Levo já seu café.


Havia muita gente na rua hoje, devia ser o horário. Dez minutos faziam a diferença naquela parte da manhã. Ela também não poderia demorar. O café chegou logo em seguida, quentinho e cheiroso como gostava. Esquentou suas mãos na xícara, tomou o café em bons goles e, serena, constatou que o dia seria tranquilo enfim, sem muitos afazeres e pendências. Respirou profundamente, deixou a xícara na mesa, levantou-se e saiu.

 

Segunda-feira, 17/03, 8h30


- Bom dia. A senhora pode me ver um café duplo hoje e aquele docinho de goiabada?

- Bom dia, minha filha. Levo já.


Sentou-se e encarou a vidraça, com um suspiro profundo. Hoje seria a reunião com as chefias e havia passado o fim de semana revisando o material preparado e os relatórios da sua equipe. Escolheu sua roupa com cuidado: nem muito feminina, nem masculina; nem tão formal como um terninho, nem tão descontraído como um vestido solto; sem muita maquiagem, os cabelos presos simplesmente, quase nada de acessórios. Estava por dentro de tudo, mas também havia percebido as falhas e os furos do trabalho e isso a preocupava. Além de tudo, estava cansada em plena segunda-feira e sua coluna já tinha passado do incômodo e já havia novamente abusado dos remédios. Trabalhar e faxinar no mesmo fim de semana não foi realmente uma boa combinação...


Olhou as pessoas transitando na rua, todos parecendo muito sérios e compenetrados nas suas urgências. Ela começava a reconhecer uma ou outra pessoa que passavam, percebia a diferença nelas de um dia para o outro e imaginava o que se passava em suas mentes. Cada uma devia ter também seus múltiplos desafios, ela não era a única nem especial nisso.


Estava acompanhando com olhar uma moça que passava quando o seu café duplo chegou. Precisava daquele reforço hoje, era um dia importante e estava tensa. Deu o primeiro gole e sentiu imediatamente o corpo começar a relaxar. Respirou fundo e iniciou o ritual de repetir as demandas do dia. “Vou organizar o material da reunião e checar os e-mails, tenho que checar as informações erradas do relatório para estar preparada na hora e então...” Não conseguiu terminar o raciocínio.


- Com licença, posso sentar? – disse um rapaz, apontando a cadeira em frente a ela.


Seria ele o mesmo rapaz que sorriu na bancada no outro dia? Não saberia dizer. Ela olhou para ele, algo surpresa. Olhou também em volta, a cafeteria absolutamente vazia. Respirou fundo e respondeu, contrariada:

- O espaço é público. – e voltou a olhar a janela.


O que ele poderia querer ali com ela? Espaço não faltava. Tinha certeza de não o conhecer e de não ter nunca trocado qualquer palavra ou olhar significativo com ele. Mas o seu ritual matinal estava rompido justamente num dia como aquele. Isso a aborreceu. O rapaz, no entanto, pareceu não perceber, porque puxou a cadeira e falou, sorridente:

- Obrigado, sempre vejo você sentada aqui sozinha e achei que...

- O senhor me desculpe, preciso ir. – disse ela, já levantando-se e olhando em outra direção.

- Mas você nem terminou seu café!


Ela olhou a xícara do café duplo, mal tocada. A frustração era evidente.

- Foi suficiente – não era. - Bom dia.


Pegou o docinho que lhe restava, suas coisas, e saiu.

Não conseguiu retomar o raciocínio, não fez seu compromisso mental, nem suas escolhas. Ficar ali, no entanto, seria pior. O espaço de fato era público, mas a aproximação não desejada era uma invasão do seu tempo e espaço à qual ela não pretendia anuir nem no trabalho, menos ainda na cafeteria.

 

Sexta-feira, 21/03, 8h33


“Uma semana produtiva”, ela pensou quando se sentou perto da vidraça naquela sexta-feira. A vida entrava numa rotina que se iniciava naquele café e seguia sem parar até o fim do dia, agora já de volta à academia. As demandas estavam organizadas, as entregas também, e de pouco em pouco ia conhecendo as pessoas e o seu novo ambiente de trabalho. Não é que tenha ficado fácil (não ficou), ou que as surpresas tenham acabado (não acabaram), mas talvez agora ela soubesse melhor onde pisava e aí então conseguia se preparar melhor para os desafios. A vida pessoal era quase inexistente, mas uma coisa de cada vez, pensava ela.


O café era parte importante daquele novo momento. Seguia seu ritual matinal de organizar mentalmente as demandas ali enquanto observava o vai e vem das pessoas pela vidraça. Aquilo que havia se iniciado quase como uma necessidade mental e desespero prático, havia se tornado um refúgio e um prazer. Hoje, por exemplo, não havia demandas a organizar, seria um dia leve e sem grandes compromissos. Estava satisfeita consigo.

Preferia, claro, não se sentir vigiada pelos olhares insistentes daquele rapaz ali na cafeteria. Mas também não era uma novidade e, comparado ao que enfrentava no trabalho, até que olhares à distância não incomodavam tanto. Não pretendia mudar aquela parte querida da sua rotina por conta de um desconhecido. Pelo menos, não até aquele momento. Deu o primeiro gole no café e sorriu satisfeita. “É um bom café esse aqui”. Não conseguiu continuar.


- Olha, eu sei que você não quer conversar, mas eu não consigo entender por quê. Eu fiz alguma coisa errada? Eu desrespeitei você porque quis conversar, só conversar? Porque você prefere ficar sozinha aqui, onde todo mundo pode te ver? E o que você tanto olha por essa janela, que não te permite ver o que tem aqui dentro? Nós estamos aqui os dois todos os dias. Casada eu sei que você não é porque não usa aliança. Por que eu não posso te fazer companhia?


O rapaz havia vindo à sua mesa novamente e disparou a falar. Ela pôde sentir uma certa raiva e uma angústia no tom de voz, o que a surpreendeu. Não entendia de onde vinha aquele ímpeto e aquele interesse. A voz dele ecoou no salão, ela se sentiu exposta. Havia tentado ignorar sua presença, sempre rondando a sua mesa, mas aquela aproximação e exposição, justamente no seu momento mais introspectivo do dia, não podiam continuar. Ela respirou fundo, olhou nos olhos dele e disse:

- Por que não.

- Como assim por que não? Porque não não é resposta.


Ela riu. Não era a primeira vez que ouvia aquele comentário, mas realmente não pretendia se justificar a quem nem conhecia e nem havia dado qualquer intimidade.

- Porque não é uma resposta completa e válida. Não insista. Com licença.


Pegou suas coisas, seu docinho de goiabada, sua água com gás e saiu, chateada.

Passou por dona Fátima, que lhe pediu desculpas pela intrusão, ao que ela respondeu com um gesto: “não se preocupe”. Na saída, respirou fundo mais uma vez e se prometeu não deixar que aquilo estragasse um dia que tinha tudo para ser muito bom. Mesmo sem o café, ela era capaz.

 

Segunda-feira, 24/03, 08h


A cafeteria havia acabado de abrir quando ela entrou.


Dona Fátima até se assustou quando lhe viu entrar tão cedo, mas compreendeu imediatamente o que ocorria.

- Bom dia, minha filha. Que bom que você veio.

- Oi, dona Fátima, né? Bom dia! Um café coado, por favor. Vou tomar aqui na bancada hoje, se a senhora não se importar.

- Mas imagine! Eu faço gosto!

- Eu gosto muito do seu café, sabe? Ele tem me ajudado muito nessa minha nova vida nesses tempos difíceis. Não sei o que a senhora coloca de especial nele, mas não consigo mais começar o dia sem tomar um pouquinho que seja.

- Ah, minha filha. São muitos anos aprimorando a prática! Um dia ainda escrevo um livro, divido meus segredos e fico rica! – disse ela, rindo como quem debocha de si mesma.


A moça sorriu. Dona Fátima foi fazendo o café dela ali mesmo e comentou:

- Me desculpe pela sexta... você já é cliente da casa e eu sei que você gosta de tomar seu coado quieta na sua mesa, mas eu não consegui evitar que ele te atrapalhasse... Ele é um bom menino, mas...

- A senhora não se preocupe que não tem nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu. E nem é a primeira vez, né? Homem não pode ver mulher sozinha que já acha que ela está disponível!

- Ah, minha filha! Você disse uma verdade mesmo. Aqui eu já vi cada coisa...

- Pois é... o problema é que eu gosto mesmo do seu café e queria continuar vindo aqui sempre, mas gosto de tomar ele sozinha, no meu canto... se eu vier nesse horário, a senhora acha que eu consigo isso? – perguntou ela, um pouco envergonhada.

- Não diga mais nada, minha filha. Venha nesse horário que ninguém vai te incomodar. Ninguém vai nem saber que você ainda vem aqui, eu prometo – dona Fátima respondeu, dando uma piscadela para a moça.

- Ah eu lhe agradeço muito!

- A gente faz o que dá, né? E tem que se ajudar.

- É mesmo, agora a senhora disse uma verdade!


Sorriram as duas, no início de uma nova e boa amizade.

Fim.

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