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ENSAIOS

de escrita, culinária, economia e finanças, bem-estar e reflexões sobre parentalidade

Uma andorinha só não faz verão

  • Foto do escritor: Juliana Machado
    Juliana Machado
  • 24 de jun. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de fev.

E de quantas ele precisa?



2018 - O marido e a filha nas compras do mês
2018 - O marido e a filha nas compras do mês

Eu lembro bem quando era criança e chegava a hora de fazer supermercado. Claro que eu não ia sempre – meus pais são maravilhosos mas há limite para tudo nessa vida e criança no supermercado há de ser um deles, certeza. Mas quando íamos junto, eu e minhas irmãs, era sempre um grande evento. Eram horas dedicadas, caixas e caixas de leite, bolachas, sucos, produtos de limpeza e higiene e por aí vai – dois ou mais carrinhos cheios, tudo em grande quantidade porque era o hábito diante dos altos índices inflacionários. Tínhamos até uma boa despensa em casa para guardar as tais caixas.

Eu não entendia a razão daquilo, mas essa é a primeira lembrança que vem à mente quando eu penso na minha relação com economia e finanças. Se pensar bem, também da minha relação (mais consciente) com a comida.


O tempo passou, nos mudamos para outra cidade e de uma casa para um apartamento. Isso por si só já provocou muitas mudanças, mas o que ninguém esperava mesmo era o Plano Real. Aí, sem aquela inflação louca e sem muito espaço para guardar mantimentos, as compras de casa foram reduzidas, espalhadas, divididas. Agora era possível fazer assim. E eu entendi que algo importante havia mudado.

E aí vem a minha segunda lembrança no assunto: o quilo do frango. Ele era símbolo do plano econômico e virou marco de referência para tudo lá em casa. Pai, quero uma saia. Quanto custa? 36 reais. 36 reais!!! Meu Deus, você sabe quantos quilos de frango dá para comprar com isso? Sim, sabíamos, afinal o quilo do frango era 1 real. Rs.


Essas duas lembranças juntas moldaram a forma como vi o mundo, o desenvolvimento econômico e até as finanças pessoais por uns bons anos. De lá eu entendi como políticas públicas, estudadas e aplicadas por homens tão distantes de nós simples famílias, podem afetar tanto as nossas vidas, mesmo que não queiramos, que ignoremos ou que lutemos contra.

Não há almoço grátis, não é mesmo?

Não, não há. Mas há educação financeira, há consciência de coletivo, há escolhas, tem muito tropeço e começar de novo, tem o voto e tem o verbo, tem sustentabilidade, movimentos e preocupações novas, aceitando as consequências dos nossos atos. E, embora o sistema seja capitalista e o dinheiro determine muita coisa ao meu redor, ele não é O mais importante – não pode ser, não posso deixar.


O tempo, fatídico como sempre, correu. De lá para cá, muita coisa mudou em mim. Não tenho mais a visão do carrinho de compras lotado como noção de sucesso ou paz, nem tenho ilusões com planos econômicos que não cuidam estruturalmente do nosso povo e que não enfrentam de verdade e de frente os nossos maiores problemas.

Entendi que sou só uma andorinha. Não sou lá um grande exemplo, mas procurei estudar educação financeira, me organizar, ser consciente. E eu posso até não fazer verão sozinha, mas posso fazer escolhas mais de acordo com as minhas visões de mundo e, quem sabe, contribuir para que ao menos junto de mim haja um pouco de ruptura, um pouco do quentinho do sol no meio desse inverno que parece que vivemos.

Não é fácil, não é simples, não é mágica e obviamente há um preço. Mas prefiro pagar esse preço em busca desse quentinho do que continuar pagando, ainda que outro preço, e continuar sufocada e presa pelo frio sistema.


Tem muitas andorinhas por aí que eu sei. Já pensou que louco se a gente se junta?

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